Nada mais fora de moda do que escrever para si mesmo. Eu nunca liguei pra moda, mesmo... A moda hoje não é o privado, é o público. De que adianta ter uma depressão se ninguém sabe? De que adianta ter perdido o namorado se ninguém está presenciando sua imensa dor, para se obter ganhos com a pena alheia...? É como a famosa piada da Sharon Stone (de quê adiantar estar com ela se ninguém sabe, etc, etc, etc)!
Talvez vivamos num mundo de miseráveis. Já dizia Mario Quintana, “o que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente”. Pois as pessoas estão morrendo. De tédio, de futilidade, de egoísmo, de absurdez.
Bem, me refiro às pessoas pequeno-burguesas, como eu. Porque grande parte do mundo está lutando para ganhar a vida, pagar as contas, conseguir uma vaga para os filhos na creche mais próxima, correndo para pegar o ônibus e conseguir um lugar sentado: ufa! Trinta minutos sentado antes de pegar no batente pode ser uma verdadeira glória...
Infelizmente há as velhinhas ― ah, as velhinhas... onde vão com tanta pressa? Por que precisam pegar o primeiro ônibus da manhã, junto com toda a massa de trabalhadores e estudantes cansados e exaltados e exasperados? Velhinhas e massa se olham com olhar de ódio. A massa pensa: “Por que não fica essa dona em casa dormindo pelo menos mais trinta minutos???? Por que não pega o próximo ônibus???? Decerto pega o primeiro ônibus só pra ter o gostinho de tirar o assento de quem precisa trabalhar... Malditas velhinhas!”
As velhinhas pensam: ...... (......)
Desisto! Nunca conseguirei imaginar o que pensam as velhinhas que pegam o primeiro ônibus! Decerto querem se vingar das velhinhas de sua época, que pegavam o primeiro ônibus só para tirar o assento do trabalhador cansado! Ou simplesmente querem ter a ilusão de que ainda precisam acordar cedo para conseguir pegar o ônibus. A ilusão de que ainda fazem parte da massa de pessoas que têm horários e razão para viver (nem que seja um livro-ponto e um chefe insuportável).
E se eu tenho tempo para não apenas pensar mas para escrever essa baboseira toda, talvez eu, assim como as velhinhas, não faça parte da massa que precisa acordar cedo e correr para pegar o ônibus. Talvez esteja num lugar, sentada há muito tempo, vendo a paisagem passar e deixar os passageiros nos pontos de ônibus, exasperados de mais espera.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
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2 comentários:
Não escreve para si... A sensação deve ser esta para quem escreve, solitário... Mas, se ajudar vou dizer: Adoro esse blog, com idéias críticas envolvidas em um embrulho poético... Uma visão nova... Aliás, muito útil, pois dou ótimas risadas, pelo menos irei retardar a minha visita ao cardiologista. Obrigada Escrever para crer.
Márcia, obrigada! Suas palavras, além de me fazerem sentir menos solitária, também retardam minha visita... ao psiquiatra! Bjs!
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