sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Discordância ortográfica

Dia 1º de janeiro entrou em vigor o acordo ortográfico entre os países de Língua Portuguesa. Dizem que desde 1986 o projeto já existia, mas Portugal se recusava a assinar. O objetivo da reforma é unificar as grafias da Língua Portuguesa falada em diversos países.

A Academia Brasileira de Letras se manifestou a favor da mudança, porque, segundo Evanildo Bechara, a Língua Portuguesa é a única em que há duas grafias corretas para a mesma língua. Não deve ser a única, a língua inglesa também oferece tais surpresas.

Quem deve estar achando o máximo são os donos de editoras que fornecem livros didáticos às escolas públicas, financiados pelo MEC. Os manuais didáticos, em sua versão reutilizável, poderiam ser usados por pelo menos três anos, por alunos diferentes. Graças à reforma ortográfica, todos os livros terão que ser reimpressos. Não é maravilhoso?

O famoso professor Pasquale Cipro Neto não é favorável às alterações. Muitos escritores renomados, como João Ubaldo Ribeiro, também são contrários à reforma, rebatendo os argumentos de que as modificações na língua auxiliariam o Brasil a ocupar seu lugar no cenário internacional. Afirma ele que não são essas mudanças que alterariam os ventos da economia para o Brasil.

Não sei qual seria nosso lugar no cenário internacional, acho que esse tal cenário parece mais uma peça de teatro para a qual já venderam todos os ingressos — e bem caro. Ficamos nas mãos dos cambistas porque, como diria Cazuza, não nos convidaram pra essa festa pobre... (que de pobre não tem nada).

Não tenho nada contra os portugueses (muito pelo contrário, acho-os bem aprazíveis e defendo até mesmo que cada mulher deveria ter o seu...). Só que, no presente caso, acho que acabamos novamente parecendo uma colônia da matriz real. Vejam só: a palavra ideia não terá mais acento (avisem o corretor ortográfico do Word, ele fica corrigindo insistentemente...). Pois bem. O que irá diferenciar ideia grafado dessa forma e a palavra teia, por exemplo? Um é um ditongo aberto; o outro, um ditongo fechado. Essa era a justificativa para a primeira palavra ser acentuada e a segunda não. Ou será que vamos ter que começar a falar com aquele sotaque português que elimina a diferença na pronúncia?

E qual seria a diferença entre linguiça e enguiça? Como explicar para uma criança que está sendo alfabetizada que se escreve igual, mas se pronuncia de forma diferente? Talvez uma boa explicação seria dizer à pobre aprendiz iniciante da Língua Portuguesa escrita que antigamente éramos uma colônia de Portugal e agora, 500 anos depois, nos desenvolvemos tanto que voltamos a ser (acho que deu saudade...).

Vai um ingresso aí, tio? Na fila da reforma ou contra-reforma?

P.S.: As regras antigas continuarão sendo aceitas até 2012. Acho que vou esperar o preço do ingresso baixar.

P.S.2: Tô me sentindo muito velha... Além de ter nascido no século passado, daqui a pouco vão me dizer: Ah, você é tempo em que se usava trema!

5 comentários:

Anônimo disse...

Eu que já não escrevo direito, vou piorar agora com as "novas regras". Coisa de quem não tem o que fazer e de gente que está a fim de ganhar MUITO dinheiro.

Anônimo disse...
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Escrever pra crer disse...

Modesto, ele é modesto... Como assim, você não escreve direito??? Se você não escreve direito, então não sei mais o que é escrever...

AAM disse...

Não se preocupem com regras e leis pois no Brasil tudo é inconstitucional e as coisas só valem depois que o Supremo diz amém (ou será amen?)

Escrever pra crer disse...

Artur, acho que então poderia ser "amem", no imperativo. Ficaria mais romântico, pelo menos! Já que é pra avalhacar...