segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Aberrações da Psicologia I

Eu já tinha ouvido algumas críticas em relação à Supernanny. Essas críticas se baseavam na questão da exposição pública de adultos e crianças. Além disso, o programa exibe famílias cuja configuração é sempre a tradicional. Outro ponto é que, apesar de ser exibido como algo muito inovador, trata-se da velha Psicologia Comportamental aplicada. E o espantoso é que funciona!

De uns tempos pra cá, comecei a assistir. Sinceramente, cheguei à conclusão de há coisa muito pior por aí. Acho que é caso raro em que a TV aberta tem um programa melhor que outros semelhantes em canais fechados. Na TV por assinatura, talvez o primeiro ou mais conhecido dos programas dessa linha seja Teenangels, produção britânica exibida no People and Arts. Alguns programas foram comprados e vêm sendo exibidos no Fantástico, traduzido como Anjolescentes, numa tentativa de recuperar o trocadilho em inglês, mais uma "pérola" da tradução-dublagem.

Ainda há A Domadora (The Teen Tamer), que estréia este mês no Discovery Home and Health e S.O.S Babás, no mesmo canal. Existem programas voltados especialmente para mães de bebês, um produzido em espanhol, na Colômbia, e outro brasileiro (para mencionar apenas os que assisti).

A quantidade de programas desse tipo expõe nossa insegurança e a necessidade de especialistas que — cada vez mais — nos digam o que fazer, nos mostrem o certo e o errado.

Supernanny, comparado a Teenangels, é um bálsamo. O “clima” é mais tranqüilo, e a babá-psicóloga, apesar de argentina, consegue ser educada e menos invasiva, apesar de tudo (apesar, também, de não ser psicóloga, mas pedagoga. Não deixa de estar em função educativa). Em Teenagels, depois de assistir a cenas gravadas na casa-alvo, dois psicólogos (por que dois? Não me pergunte...) conversam com a família e dão orientações sobre o que deve ser feito. Num segundo momento, instala-se uma espécie de “ponto” nos pais. Os psicólogos dizem o que deve ser falado e os pais então repetem, como políticos lendo um discurso que não foi escrito por eles, repetem as “instruções”. Shame on you, Englishmen! Seriam os ingleses mais incompetentes do que nós? Sim, porque Cris Poli, nossa Supernanny, simplesmente orienta os pais, explica os motivos pelos quais deveriam mudar sua atitude e as razões de determinados comportamentos infantis. Parece funcionar. Talvez os brasileiros realmente sejam mais espertos no quesito habilidades sociais, mesmo quando recebem instruções de um argentino (não contem para o Maradona, ele vai querer roubar o lugar do Dunga...).

A Domadora, apesar de não ter estreado, parece ainda mais assustador, só pelos flashes de propaganda. A própria expressão “domar” revela a concepção que os idealizadores têm dos adolescentes, o que é lamentável.

Por mais que pensemos que somos modernos, senhores razoáveis, verdadeiros iluministas, cuja racionalidade poderia nos salvar de toda desgraça, continuamos pensando em termos de modelos a serem seguidos. A Psicologia foi e vem sendo utilizada para tais propósitos. Vem sendo utilizada para o controle e para estabelecer modelos para seres humanos vivendo em partes distintas do planeta, por vezes ignorando questões de gênero, históricas, sociais e culturais. Obviamente não me refiro à totalidade da Psicologia como ciência, mas — sejamos sinceros — no senso comum, Psicologia remete a controle, ao rótulo de quem é normal ou louco.
E, somado a tudo isso, como somos seres deste século, não basta ter um problema, é necessário que o mundo inteiro saiba. Mas isso já é outra história.

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