quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Ano Novo, promessa velha

Não sei quem inventou esse negócio de promessa de Ano Novo, mas faz parte das tradições de final (ou começo) de ano. Provavelmente foi algum político, porque em matéria de ficar só na promessa, eles são imbatíveis. A maioria das promessas fica só nisso.

Neste ano juro que não vou mais beber! Prometo que no ano que vem não vou passar o Natal de regime! Juro que vou quitar minhas dívidas e não vou gastar mais do que ganho! Prometo que não vou mais brigar com os outros por qualquer coisa! Juro que largo esse emprego ano que vem! Prometo que não passo mais nenhum ano desempregado! Juro que não vou passar mais um Ano Novo solteira! Prometo que não passo mais nenhum Ano Novo casado! E por aí vai...

Mas o fato é que não conheço ninguém que não faça as famigeradas promessas (mesmo que secretamente). Algumas pessoas não fazem promessas, fazem desejos. Acho que o desejo é mais a cara do eleitor, porque ele tem um poder restrito. Será que a promessa é algo que depende da gente e o desejo depende mais dos outros?

Promessa, pelo meu querido Houaiss, é o compromisso de realizar ou contrair uma obrigação (argh), afirmativa de que se fará alguma coisa. Outra acepção é “tentativa de suborno”. Puxa, não sabia que promessa era algo tão ruim... Será que as velhinhas das igrejas sabem disso? Devem saber! “Santa Edwiges, eu prometo acender cinco velas se eu conseguir dar o troco naquela vizinha!”. Não deixa de ser uma espécie de suborno... E sabe-se lá para quê a santa vai querer cinco velas, ainda mais lá no céu, que não falta luz!

Mas, e o desejo? Desejo, pelo mesmo Houaiss, é uma aspiração que algo corresponda ao esperado, uma vontade ou querer, uma expectativa de alcançar algo, pretensão ou propósito.

Bom, então estou errada nas minhas concepções. O desejo também depende da gente, mas está mais próximo de ser realizado ou posto em prática (deve ser por isso que os políticos não nos revelam seus desejos, só as promessas...) .

O desejo, então, traz mais possibilidades, porque une a vontade, a expectativa e o propósito. Espero que, neste ano, ninguém fique só na promessa. My best wishes pra todos!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Second life

Imagine, uma segunda vida. Como se a primeira já não fosse complicada o suficiente... Não, não é reencarnação. O second life é uma espécie de jogo, um mundo virtual em 3D. A pessoa cria um personagem, uma espécie de alter-ego do que o pobre cidadão comum gostaria de ser, chamado de avatar.

O indivíduo monta tudo: seu corpo, cor de cabelo, altura, peso, sexo, profissão. O programa tem vida própria, com colunistas sociais, jornalistas, que divulgam os acontecimentos do mundo virtual, como o Miss Mundo Virtual 2009 (é 2009, mesmo...). Alguns vêem no programa uma oportunidade para sublimar tendências que não consideram possíveis de serem assumidas na vida real, como uma homossexualidade, por exemplo. Empresas têm lançado eventos simultaneamente no mundo virtual e no mundo real.

Talvez o homem tenha necessidade de fugir da realidade, cada século a seu modo: pelo teatro, pelo romance, pelo cinema e, agora, pela internet (nota: acho que toda forma de arte é um encontro consigo mesmo, não uma fuga, mas vá lá...).

Mas creio que nada se compara ao second life. A simulação da realidade nos faz pensar até que ponto as pessoas não chegaram a um estado de frustração em suas vidas corriqueiras que é necessário inventar outra vida. Se no século passado fazíamos revoluções, neste século o homem senta-se confortavelmente em frente a seu micro e finge ser outra pessoa, em um mundo melhor. A imaginação é a o primeiro passo para se buscar mudança: imaginar um mundo melhor, diferente. Mas a imaginação em torno do próprio umbigo soa mais parecida com uma profunda alienação.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Killing time at home




A tradução livre seria algo como “matando o tempo em casa”. Criado por Neil Coslett, essa animação produzida para o Channel 4 (Inglaterra) ganhou o prêmio British Animation Awards em 2003.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Blogs: me deixa falar!

Os blogs são um fenômeno na internet. Em uma breve busca, encontramos cerca de 3.050.000.000 blogs (é isso mesmo: mais de três bilhões).

Um blog pode servir para fins profissionais, para propagar idéias... Há blogs de políticos, de jornalistas, de artistas de televisão, de escritores, de músicos, cantores, de emergentes, de candidatos a celebridade... Existem também as pessoas comuns que descrevem suas viagens, falam sobre sua ansiedade em engravidar, sobre os primeiros anos do bebê, sobre seu processo de emagrecimento, etc etc etc...

Existem muitas pessoas que divulgam poesias e há ainda os adolescentes desfiando seu rosário de inseguranças a quem quiser ler. O fato é que as pessoas querem ser ouvidas. Muitas vezes não é possível ser ouvido dentro da própria casa mas, através de um blog, é possível ser lido por gente desconhecida. Pode ser alguém fisicamente distante, mas que se identifica com o que aquela pessoa escreveu.

Havia um tempo em que as pessoas escreviam diários, que também eram uma escrita de si. Mas nesses idos do século 21, a intimidade da escrita de si para si foi substituída pela escrita de si para o outro. Há um lado atemorizante de que tudo isso seja apenas exibicionismo. Mas também há outro lado, certamente positivo, de abrir-se para o outro. E talvez uma percepção, ainda que inconsciente, de que somos constituídos pelo outro, através da linguagem.

Não deixa de ser maravilhosa a possibilidade de ler um desconhecido que pense de forma semelhante a nós (ou mesmo diferente, mas que valha a pena ler simplesmente pelo fato de ter idéias inteligentes). E viva a internet!

domingo, 21 de dezembro de 2008

“Então é Natal...

....e o quê você fez...?” Sabem... vou fazer uma confissão de Natal para vocês. Eu ODEIO essa música. A música do John Lennon, original, é bonita, tudo bem, mas a previsibilidade de ouvi-la ao menos umas 500 vezes durante o período natalino é maçante demais. E a Simone foi um tanto infeliz em gravá-la... A música já não é muito animada, na voz da Simone ficou depressiva. Sou capaz de sair de uma loja se estiver tocando essa música. Mesmo. E aquelas apresentações de power point, de gosto duvidoso, que têm a musiquinha da Simone de fundo? Bem, há quem goste. Não é o meu caso.

Existem tantas outras músicas mais bonitas, em inglês, português e até em espanhol, como Feliz Navidad, gravada pelo Ivan Lins. Além de não ser em inglês, nos dá uma oportunidade natalina de sentir-nos parte da América Latina -- coisa que o brasileiro médio abomina – mas, afinal, é Natal, vamos tentar.

Às vezes chego a pensar que o tal “espírito natalino” baixou em algum centro espírita e na verdade é uma alma penada. Fica vagando e atormentando os pobres transeuntes e compradores desesperados de presentes de última hora.

Dizem que o período das festas de Natal é uma época em que aumentam o consumo de bebidas alcoólicas e drogas, porque as pessoas ficam depressivas. Talvez fiquem depressivas porque a pressão para parecer feliz, aparentar ter sucesso e ter conseguido tudo o que desejava é opressiva. A necessidade de se confraternizar e de gostar de tudo e todos é quase compulsória. Penso que se permitir admitir não gostar de alguém é o primeiro passo para um perdão num futuro distante (ou próximo). Mas pouca gente se permite.

Chegar ao final do ano é como ter que apresentar um boletim cheio de notas vermelhas para um professor bastante severo e intolerante.

Como seria bom se o presente de Natal pudesse ser a permissão para cada um ser espontâneo e ser como é. Seria muito mais terapêutico e talvez até incrementasse as vendas... Bom, isso também não, porque já está comprovado que certa dose de distimia é ideal para alavancar o consumo. Mas, como é Natal, não custa sonhar!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Aniversário de Manoel de Barros

Hoje é aniversário do poeta Manoel de Barros, sobre quem muito já foi dito e re-dito (inclusive por mim mesma em outras plagas não tão distantes..). Para não ficar mais dizendo o que todos já disseram, vamos ficar com as palavras do próprio Manoel, com os sinceros desejos de Feliz Aniversário!


A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
palavras que me aceitam como sou — eu não
aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

(Manoel de Barros, Retrato do artista quando coisa, p.79)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Story of stuff: capitalismo em 20 minutos

Recebi por e-mail o vídeo A história das coisas. Escrito por Annie Leonard, especialista em temas como sustentabilidade e consumo, o documentário faz parte de um projeto e pretende explicar de que forma a economia baseada no consumo e na produção de bens materiais produz impactos na economia, no meio-ambiente e na saúde das pessoas.

Para John Passacantado, diretor executivo de Greenpeace, Annie Leonard consegue explicar de forma simples o funcionamento do sistema capitalista. Além disso, diz ele, a forma de produção (trata-se de um vídeo de animação) e divulgação (pela internet) é de baixo custo, o que torna Annie Leonard uma ativista muito à frente de Al Gore, com seu documentário milionário.

Eu, singelamente, daqui do centro-cerrado de um estado da periferia do Brasil, acho o documentário de Al Gore extremamente chato (nunca consegui assistir até o final). Duvido sempre das intenções de políticos e penso que Gore se atém apenas às questões ambientais, deixando de lado a raiz do problema, que é abordada diretamente por Leonard. Mas, como eu disse a vocês, não assisti até o final, então... Se alguém quiser retrucar, esteja à vontade.

Mas, voltando ao nosso documentário. O fato de ser distribuído gratuitamente pela internet resultou em que mais de 4 milhões de pessoas já assistiram. É interessante a análise que a autora faz a respeito da reciclagem: mesmo que cada indivíduo reciclasse 100% do que compra, pouco resolveria, porque não chega à raiz do problema. Além do mais, indivíduos isoladamente não produzem mudanças de impacto. Não sou contra reciclar, acho mesmo que é bastante desejável, mas uma economia baseada no consumo faz com que nos utilizemos de coisas finitas (como água, fertilidade do solo, minérios, plantas) como se fossem infinitas.

Períodos de crise, como o atual, talvez sejam boas oportunidades para refletir sobre as questões comentadas no vídeo. Para quem se interessa pelo assunto, ainda pode conferir outro vídeo interessante: o Samba da mais-valia, de Sérgio Silva.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Sapatinhos de cristal ou a falta que um sapato me faz

Aqueles que me conhecem bem sabem da minha fissura por sapatos. Sempre adorei sapatos, acho que um bom par é o toque final de qualquer visual, pondendo mesmo estragá-lo completamente. Um parzinho a mais nunca é demais.

Mas, desde a nossa romântica Cinderela e seus sapatinhos de cristal não se fazia tão bom uso de um par de sapatos como nesta semana. E, para espanto das mulheres, a façanha veio de um homem! Iraquiano, 33 anos, jornalista, o jovem Muntader al Zaidi não suportou a visão do anti-Allah George W. Bush e descarregou toda sua indignação. Não se contentou com um, mas lançou logo o par, acompanhado de elogios: "É seu beijo de despedida, cachorro. Isso é pelas viúvas, órfãos e pelos que foram mortos no Iraque". Felizmente, ou infelizmente para ele, Bush-Filho é mais competente em reflexos físicos do que habilidades intelectuais.

Segundo Sérgio D´Ávila, em artigo da Folha de São Paulo (16/12/2008), na etiqueta árabe, a maior ofensa que pode haver é bater em alguém com a sola dos sapatos. Na etiqueta feminina: se forem sapatos baratos, então, não é preciso nem bater, já são uma ofensa só por existirem.

Mas convenhamos: que mulher seria capaz de tamanho desapego com um par de sapatos? Realmente, na luta pela autonomia, democracia e liberdade de expressão, nós mulheres lutamos com outras armas...


Para quem gosta de jogos, o pessoal do charges.com criou o game Sapatadas de vingança, "Faça o que o jornalista não conseguiu". O objetivo é acertar o Bush, claro. Clique aqui.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Barão de Itararé em tempos de crise de empregabilidade

Barão de Itararé era o pseudônimo de Apparício Torelly, gaúcho de Rio Grande, nascido em 1895. Estudou medicina, mas não concluiu o curso e foi morar no Rio Janeiro, onde trabalhou nos Jornais O Globo e A Manhã. Consta que era um humorista que proferia frases impagáveis. Sua filosofia era: “Posso perder o amigo, mas não perco a chance de uma boa piada”. Pois eu fico pensando se haveria sobrevivência para nosso gaúcho humorista nesses tempos em que as relações sociais se transformaram em contatos. Poucas são as pessoas que cultivam amigos: a grande maioria tem contatos, ou seja, consideram garantia de empregabilidade o fato de conservarem redes de conhecidos que conhecem outros (des) conhecidos que são vistos como tendo certa utilidade num futuro talvez não tão distante...
Nesses tempos de empregos escassos e baixos salários, talvez a sinceridade desmedida como a do nosso Barão seja coisa cada vez mais rara, pois a hipocrisia pode muitas vezes garantir o leitinho das crianças.

Enquanto isso, podemos nos divertir com algumas das frases do Barão de Itararé:

“Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.”

“Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo.”

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada.”

“Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.”

“Quem empresta, adeus...”

“Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.”

“Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.”

“O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.”

“Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta...”

“Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.”

“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.”

“O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.”

Máximas disponíveis em: http://www.culturabrasil.org/itarare.htm

sábado, 13 de dezembro de 2008

A Vida dos Outros

Quem tiver oportunidade não deve deixar de assistir A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), do cineasta Florian Henckel von Donnersmarck. Ambientado na Alemanha Oriental, no ano de 1984, o filme retrata o sistema de espionagem nos anos da Guerra Fria. É de uma beleza única e mostra como a arte pode fazer os homens melhores. Ou, como diria Lukács (1978), despertar o homem para níveis superiores de consciência, porque reflete a realidade transfigurada pela subjetividade do artista. Através da arte, podemos entrar em contato com a universalidade do gênero humano e, dessa forma, compreender melhor a nós mesmos e aos outros. Para quem gosta de arte e de pensar.

Na HBO hoje (13/12) às 21 h, 17/12 às 21h, 21/12 às 19h40 e 29/12 às 23 h. Horário de Brasília.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tradições de final de ano 2: ainda o amigo secreto

Eu não consigo entender o objetivo do amigo secreto. A gente coloca todos os nomes numa lista, corta os papeizinhos, dobra e pede para cada pessoa tirar um. A gente abre o papelzinho, faz cara de espanto, de decepção, de triste, de preocupado ou de nada (quando não conhece a pessoa, o que também é freqüente). Aí fica na ansiedade até que chegue o famigerado dia da troca de presentes do amigo secreto.

Sempre tem alguém que tem a sorte de ter sido tirado por um amigo declarado e não tão secreto e, por esse motivo, ganha exatamente o que queria.

Tem outra espécie de sortudo que foi tirado por alguém disposto a gastar mais do que o limite estipulado na brincadeira e sai com um presente bem mais legal do que da maioria dos mortais.

Existem os azarados. Os azarados são aqueles que têm a idéia da brincadeira, convencem todo mundo (e até eles mesmos!) de que amigo secreto é uma coisa legal, fazem todo mundo escrever cartinhas, recolhem mais uma taxinha para os comes e bebes, cuidam para que dê tudo certo no dia da festinha e... acabam sem presente. Conversando com um desses azarados reincidentes, descobrimos que não é a primeira vez que isso acontece. Mas eles não desistem e, ano após ano, tentam novamente. Talvez para se livrarem da maldição, no melhor estilo freudiano.

E, finalmente, existem as pessoas normais, que não têm grandes esperanças de que o amigo secreto traga nada de mirabolante, ou que solucione todos os problemas, como um depósito em euros ou uma caixa de antidepressivo. Participam da brincadeira para confraternizar, sabendo que é mais um dos rituais de fim de ano e que, caso você opte por não participar, será tachado de anti-social até, no mínimo, o próximo amigo secreto. São a grande massa de conformados que agradecem o presente e seguem em frente. Muitas vezes, ganham presentes que devem ter alguma beleza escondida e ainda não descoberta. Mas, em se tratando se presentes, acho mesmo que até o pequenino Jesus e sua mãe, ao receberem aqueles presentes estranhos vindos de pessoas não menos estranhas, ficaram pensando: Nossa, onde vamos usar isso????

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tradições de final de ano I: amigo secreto

Hoje fui a uma festinha com o tradicional amigo secreto de final de ano.
O que mais me espantou é que, conversando com alguns colegas que estavam participando da brincadeira, desabafei que eu não gostava de amigo secreto (ou oculto, para os vêm de outras regiões do país). Qual não foi meu espanto quando ouvi vários “Eu também!” Diante da quantidade de “eu também”, ficamos nos perguntando: afinal, se tem tanta gente que não gostava daquilo, quem teria sido a mente iluminada que tinha sugerido a brincadeira? Não descobrimos. Deve ser mais uma daquelas tradições de final de ano, em que as pessoas se sentem estimuladas a confraternizar. Eu não me sinto. Me sinto obrigada. Acho que meu sangue judeu fala mais alto nessas horas: puxa, gastar de novo??? Mas também acho que as pessoas estão trabalhando tanto, mas tanto, que talvez ao invés de uma série de variados amigos secretos, melhor do que receber presentes seria ganhar um dia de folga. Ou dois, dependendo se o amigo fosse generoso...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Seu constrangimento é cortesia da casa

Ela dirigia apressada para conseguir chegar a tempo no banco. Procurou lugar para estacionar... Pô, esse cara não anda, não?? Finalmente consegue estacionar. Na calçada, correu e ultrapassou os transeuntes para chegar antes deles ao banco. Apressou-se um pouco mais e finalmente! Aquele ar condicionado gelado encontrava seu corpo. Era uma das poucas coisas boas em se ir ao banco. Além do dinheiro a sacar, claro.

Entrou pela porta giratória e... E nada. Estacou. O guarda veio em seu socorro: “celular, chaves...?” O celular, rosa bebê, denunciava que ela era uma moça delicada porém sexy. As chaves denunciavam que talvez não fosse tão rica quanto desejava.

Dirigiu-se novamente à porta giratória. Nova decepção. E o guarda: “A senhora tem alguma coisa com metal?” Senhora é a mãe, pensou ela. O porta-moedas estava cheio. Era um bichinho de pelúcia, um sapinho, uma coisa fofa, mesmo, que denunciava que talvez ela não fosse tão adulta quanto gostaria (ou pelo menos era o que sua mãe pensava).

Lá se foi para porta. Barrada novamente. Ela não sabia mais o que poderia ser, não havia nada... A bolsa escancarada possibilitou ao guarda selecionar, averiguar e apontar: “Pode ser essa caixa de óculos aí, ou talvez...” Pode escolher, seu moço, banana, maçã...? Ela tirou a caixa de óculos, que denunciava que ela já não enxergava tão bem como antes. Aproveitou e tirou da bolsa o remédio para enxaqueca, porque afinal ela já não se sentia tão bem como gostaria. Tirou também a escova de dentes e o creme dental, porque ela não ia almoçar como gostaria.

Tentou passar pela porta. “Agora deu, dona!” E assim, revistada toda sua intimidade e despida de toda sua autoconfiança, deixou de ser a atração dos clientes na fila do banco. Ah, se eu tivesse uma faca, nada disso teria acontecido... Mas foi só um pensamento. Pelo menos isso ainda passa pela porta. E dona é a mãe!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O problema é substituir as preocupações pela ocupação...

...já dizia Mario Quintana. Concordo com ele que é uma boa filosofia, que poderia até virar lema dos capitalistas de plantão. Parecem dizer aos deprimidos: “Não se lamentem, vão trabalhar!” Desculpe, Mario, me empolguei...

Bem, mas o segundo problema (ou seria primeiro?) dessa substituição é escolher qual a ocupação correspondente à referida preocupação. Por exemplo, suponhamos que eu esteja preocupada com um relatório do trabalho que tenho que fazer. Em vez de ficar me preocupando, posso substituir esse sentimento por uma ocupação: ir até o supermercado ou padaria mais próxima e comprar alguma coisa pra comer.

Meu superego iria argumentar: Nesse caso não se trata de ocupação, você cometeu um sacrilégio que deverá carregar pelos próximos... dias ou meses, caso não queime as calorias. Portanto, cria-se outro problema: o problema de substituir a preocupação pela ocupação mais acertada ou que solucione a preocupação. E, voilá! De uma preocupação, passamos a ter duas! Nossa, eu realmente sou expert nisso...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Você não está seguindo nenhum blog

Fui verificar o meu perfil hoje e veio essa mensagem. É claro que não estou seguindo nenhum blog! Blog não é novela, para eu ficar acompanhando, não é bandido para eu ficar perseguindo, nem amante para eu ficar seguindo!

Depois tem aquela outra mensagem para ver quem me acompanha ou me segue: meus “seguidores”. What the hell is that? Eu lá sou Jesus Cristo, pra ter seguidores? Che Guevara? Na verdade, me contentaria em ter leitores. Desde que não façam muitas perguntas...

sábado, 29 de novembro de 2008

Artista virtual

Para quem quer brincar de Jackson Pollock, no site www.jackson pollock.org (veja o link à esquerda) há um aplicativo em flash que permite simular a forma como o artista criava suas obras. O segredo é mover o mouse rapidamente. Para trocar as cores, clique com o botão direito do mouse. O programinha foi desenvolvido por Miltos Manetas, artista multimídia grego radicado em Londres.

Jackson Pollock (1912-1956) pintor americano, expressionista abstrato. Utilizava-se de uma técnica que denominou de gotejamento. Pintava no chão e desenvolvia a obra a partir de uma gota. Em 2000, o ator Ed Harris atuou e dirigiu filme sobre a vida do artista.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Pedestre identificada

Eu estava caminhando até a farmácia, e vinham duas moçoilas na minha frente. Nas costas de uma delas, que usava blusa de alcinha, vi um traço na horizontal. Minha curiosidade me fez apertar o passo. Não precisei muito, porque os dizeres eram grandes: “Ana Luiza”. Assim mesmo, com aspas (how weird!). Vejam só... Fiquei sem palavras com aquilo. Poxa, eu não sou tão velha assim, mas na minha época existiam, para as mais abastadas, correntinhas de ouro com um pingente em que surgia, reluzente, o nome da felizarda. Para os não tão abastados, houve a moda da pulseirinha feita com um pedaço de plástico duro no qual se enrolava linha de cores diferentes, como um tear. Aquela pulseirinha, após seu primeiro banho ficava com um aspecto estranho. Sim, após o banho, porque não tinha fecho, era de amarrar. Lá pelo enésimo banho, ficava mal-cheirosa. Nem preciso dizer que, entre a primeira opção e a segunda, eu tinha a segunda.

Mas voltemos à nossa amiga Ana Luiza, agora devidamente identificada, pois a moça nos deu a oportunidade de, mesmo sem nunca a termos visto, sabermos seu nome... De costas! Como eu sou um pouco mais irônica, imagina que eu iria perder a oportunidade de tatuar algo como “O que que foi, nunca viu?” ou “Vai cheirar o cangote da sua avó!” Ou então, no melhor estilo pára-choque de caminhão: uma vez vi um adesivo (que aliás, na minha época se chamava decalco), que era escrito bem pequenininho, de propósito, com algo do tipo: “Se você chegou a essa distância, está prestes a bater seu carro na minha traseira.” E eu cheguei à conclusão que a intenção da Ana Luiza devia ser parecida.

domingo, 23 de novembro de 2008

Reality shows e voyeurismo 2

Nada como um dia depois do outro. Eu disse aqui mesmo, no dia 20 de novembro, que se eu tivesse Orkut, eu criaria uma comunidade: “Eu assisto reality shows”. Ainda bem que eu não tenho Orkut. Fim de ano vai chegando e começa... Começam a propaganda e as inscrições para um dos programas mais imbecis da televisão (não apenas brasileira: a criação original, pasmem, é da holandesa Endemol Entertainment). Nem vou mencionar o nome do programa, que deturpa o sentido que George Orwell deu ao termo no livro 1984.
Aliás, deviam incluir nas provas para entrar no programa a leitura do livro, pelo menos elevaria um pouco o nível: a pessoa teria que ser alfabetizada para entrar, o que também não garante muita coisa... Pois é, nada como mudar de idéia!
Nessas horas, Quintana, só tu me salvas: Eu não sou desses que um dia pensa uma coisa e no outro dia pensam outra coisa muito diferente. Eu penso as duas coisas ao mesmo tempo. Duas ou mais. Eu não tenho culpa de ser ecumênico. (Caderno H, 2006, p.228).

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Assistir reality show é uma forma de voyeurismo?

Eu não tenho Orkut (sou do século passado) mas, se tivesse, criaria uma comunidade: “Eu assisto reality shows”. Realmente, é viciante. Por que assistir filmes com pessoas irreais, com padrões de beleza irreais, se eu posso acompanhar os problemas de uma pessoa real, com suas imperfeições, e me identificar com eles? De que adianta eu assistir a um filme de uma pobre mocinha rejeitada e feia, se eu sei que, no fim do filme, ela vai ficar linda e maravilhosa porque, afinal, a atriz é a Cameron Diaz... Por isso prefiro os reality shows, por mais fake que possam ser, ainda há vestígios das pessoas comuns que realmente são. Mas não deixa de ser certo voyerismo querer saber segredos da vida dos outros. Mas, desde que Freud surgiu, podemos nos entregar a esse prazer e revesti-lo de curiosidade científica.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Blogs do Além

Vitor Knijnik tem publicado semanalmente na revista Carta Capital a coluna Blogs do Além. A personalidade desta semana é Elvis Presley, com o post impagável A morte me cai bem. Ainda há o blog de Freud, Eu explico, o de Hitler, Marx, Che e por aí vai. Jorge Luis Borges utiliza seu blog para enviar mensagens do além e inconformadamente alertar seus (não)leitores de que muitos poemas que andam circulando pela internet com sua assinatura, na verdade não são dele, porque ele não era tão piegas ou medíocre. Ele revela saber que, em sua maioria, quem costuma confundir é porque não conhece o escritor de fato. (Aproveito para dizer o mesmo em relação a meu amado e injustiçado Mario Quintana, transformado em um poetinha de banalidades pelos power-points aí afora). Para conferir os blogs do além: http://www.blogsdoalem.com.br/

Da série lendas urbanas: A maldição da bruxa gorda

Ah, nada como ouvir a conversa dos outros! Estava eu esta semana na fila do supermercado quando ouvi o fragmento final da conversa de duas amigas: “Eu já não chamo ninguém de gorda por causa disso, morro de medo de ficar gorda, essas coisas voltam, Deus me livre!!!!!”. Aos poucos fui compreendendo. Uma das moças falava sobre sua crença (ou seria certeza?) de que, se chamamos alguém de gordo, essa energia “volta” para você e, no fim das contas, é você que se torna gordo. No melhor estilo “quando apontamos o dedo para alguém, outros dedos ficam em nossa direção”. Fiquei vibrando com aquela filosofia de fila de supermercado! Finalmente descobri a causa do meu aumento de peso no último ano! Devo estar chamando umas vinte pessoas de gorda por dia! Estamos rindo porque nos consideramos pessoas instruídas, claro. Ah, o senso comum! O pensamento mítico! O pensamento mágico! Claro, claro.

Mas a verdade é que não me atrevi a chamar mais ninguém de gorda, nem aquela minha chefe de 150 quilos...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Aberrações da Psicologia I

Eu já tinha ouvido algumas críticas em relação à Supernanny. Essas críticas se baseavam na questão da exposição pública de adultos e crianças. Além disso, o programa exibe famílias cuja configuração é sempre a tradicional. Outro ponto é que, apesar de ser exibido como algo muito inovador, trata-se da velha Psicologia Comportamental aplicada. E o espantoso é que funciona!

De uns tempos pra cá, comecei a assistir. Sinceramente, cheguei à conclusão de há coisa muito pior por aí. Acho que é caso raro em que a TV aberta tem um programa melhor que outros semelhantes em canais fechados. Na TV por assinatura, talvez o primeiro ou mais conhecido dos programas dessa linha seja Teenangels, produção britânica exibida no People and Arts. Alguns programas foram comprados e vêm sendo exibidos no Fantástico, traduzido como Anjolescentes, numa tentativa de recuperar o trocadilho em inglês, mais uma "pérola" da tradução-dublagem.

Ainda há A Domadora (The Teen Tamer), que estréia este mês no Discovery Home and Health e S.O.S Babás, no mesmo canal. Existem programas voltados especialmente para mães de bebês, um produzido em espanhol, na Colômbia, e outro brasileiro (para mencionar apenas os que assisti).

A quantidade de programas desse tipo expõe nossa insegurança e a necessidade de especialistas que — cada vez mais — nos digam o que fazer, nos mostrem o certo e o errado.

Supernanny, comparado a Teenangels, é um bálsamo. O “clima” é mais tranqüilo, e a babá-psicóloga, apesar de argentina, consegue ser educada e menos invasiva, apesar de tudo (apesar, também, de não ser psicóloga, mas pedagoga. Não deixa de estar em função educativa). Em Teenagels, depois de assistir a cenas gravadas na casa-alvo, dois psicólogos (por que dois? Não me pergunte...) conversam com a família e dão orientações sobre o que deve ser feito. Num segundo momento, instala-se uma espécie de “ponto” nos pais. Os psicólogos dizem o que deve ser falado e os pais então repetem, como políticos lendo um discurso que não foi escrito por eles, repetem as “instruções”. Shame on you, Englishmen! Seriam os ingleses mais incompetentes do que nós? Sim, porque Cris Poli, nossa Supernanny, simplesmente orienta os pais, explica os motivos pelos quais deveriam mudar sua atitude e as razões de determinados comportamentos infantis. Parece funcionar. Talvez os brasileiros realmente sejam mais espertos no quesito habilidades sociais, mesmo quando recebem instruções de um argentino (não contem para o Maradona, ele vai querer roubar o lugar do Dunga...).

A Domadora, apesar de não ter estreado, parece ainda mais assustador, só pelos flashes de propaganda. A própria expressão “domar” revela a concepção que os idealizadores têm dos adolescentes, o que é lamentável.

Por mais que pensemos que somos modernos, senhores razoáveis, verdadeiros iluministas, cuja racionalidade poderia nos salvar de toda desgraça, continuamos pensando em termos de modelos a serem seguidos. A Psicologia foi e vem sendo utilizada para tais propósitos. Vem sendo utilizada para o controle e para estabelecer modelos para seres humanos vivendo em partes distintas do planeta, por vezes ignorando questões de gênero, históricas, sociais e culturais. Obviamente não me refiro à totalidade da Psicologia como ciência, mas — sejamos sinceros — no senso comum, Psicologia remete a controle, ao rótulo de quem é normal ou louco.
E, somado a tudo isso, como somos seres deste século, não basta ter um problema, é necessário que o mundo inteiro saiba. Mas isso já é outra história.

sábado, 15 de novembro de 2008

Bono e o Papa ou You can´t scape from who you are

No dia 6 de novembro, a MTV transmitiu o EMA (não, não é um bicho), o Europe Music Awards, direto de Liverpool. Como sempre, os europeus fazem festas muito melhores que as dos americanos, mais bem produzidas, com idéias mais criativas e bem pensadas (sou puxa-saco, mesmo). Um dos pontos altos da premiação foi a homenagem ao (ex ou eterno?) Beatle Paul McCartney. O troféu foi entregue por Bono Vox, que fez um discurso um tanto extenso ao homenageado (quase cinco minutos). Algo que chamou a atenção foram as comparações usadas por Bono: “Me convidar para entregar esse prêmio é como perguntar a um padre se ele gostaria de entregar um presente a São Pedro.” “Quando viemos para cá, Paul estava dirigindo. Foi como estar no Papa móvel com o Papa dirigindo!” E, para apresentar o Beatle:“Se estivéssemos em Roma, ele seria o Papa.” E, ao final: “You call him Sir, I call him Lord!” (Um trocadilho sobre o título de nobreza de Paul, senhor, e a palavra Lord, que também é um título de nobreza, mas no jargão religioso se refere a Jesus Cristo). Me identifiquei com o popstar irlandês por sua origem católica (aliás, a longa apresentação de Bono me fez lembrar sermão de missa), mas nada mais fora de lugar do que aqueles comentários católicos numa nação protestante. Seria ingenuidade ou pura provocação? “Tu que o dizes”, would the Lord say...

Escrever pra crer

Deus faz coisas boas mesmo a partir de coisas ruins.
Flores brotam do esterco, mas precisam ser plantadas!
Acho que é Deus quem planta.
Será que não é Ele também que joga o esterco?
Acho que não, porque senão Ele seria ruim.